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Mars To Travel

Ilha de Santiago, Cabo Verde

Visitamos 3 ilhas de Cabo Verde, durante duas semanas em Novembro de 2019. Passamos pela Ilha de Santiago, Boa Vista e a última paragem foi a Ilha do Sal. 

Neste post, vou descrever o que fizemos na:

Ilha do Santiago. Ou a também conhecida como A ilha dos cabo-verdianos. “Credo, porque foram para essa confusão” questionou-nos uma cabo-verdiana que trabalha na ilha do Sal. A confusão só pode referir-se a cidade da Praia. Já que a Serra da Malagueta e a Tarrafal confusão tiveram pouca.

~Cidade da Praia ~

Viajamos até ao país do ‘’no stress’’ no início do mês de Novembro, o impacto que mais ansiamos fez-se sentir assim que saímos do avião: os 31 graus, em Praia, em pleno inverno português.

Aterramos na Praia, capital de Cabo Verde, na Ilha de Santiago, ao início da tarde e as temperaturas altas denunciaram a maior ansiedade destas férias: apanhar calor!

Chegamos ao mini aeroporto de Praia para dois dias na ilha de Santiago, o tempo era não era muito, mas o nosso objectivo era tentar conhecer o máximo no escasso tempo que tínhamos. 

Fomos até ao local onde ficamos hospedados na Casa Sodadi, mesmo no centro de Praia, apanhamos um táxi a partir do aeroporto e pagamos 1000 escudos até lá, obviamente que apanhar um táxi ali não é problema. 

O alojamento tem uma óptima localização, pertinho do Mercado Sucupira, mesmo na Avenida Amílcar Cabral. 

Nesta avenida  testemunha-se muito da vida dos que ali vivem, trabalham ou vão até a escola, tendo em conta que é ali uma das paragens de autocarro mais concorridas de Praia, que levam os locais aos mais diversos pontos da cidade, ou mesmo da ilha.

Nesta zona existem várias escolas, os serviços públicos mais variados, instituições bancárias e pelo menos dois mercados de produtos frescos, que visitamos.

Pousamos as malas e seguimos à descoberta de algum sítio onde almoçar, aconselhados pela dona do alojamento, fomos a procura da famosa ‘’Katxupa’’, na recomendada Kasa Katxupa: o restaurante é super amoroso e decorado de uma forma cuidada e autêntica (por cerca de 12€ almoçamos os dois, consumindo ainda duas cervejas locais e dois cafés).

O staff era super simpático, o restaurante tem imensa variedade de pratos no menu, pratos do dia, petiscos e cocktails. Pareceu-nos também uma excelente opção para jantar, ou até mesmo para tomar o pequeno almoço. 

Depois do almoço caminhamos pelo Plateau, bairro e centro histórico da cidade de Praia, com ruas bastante limpas e organizadas, conhecidas pela sua arquitectura ao estilo colonial. Caminhamos até um miradouro onde avista a zona costeira e o porto da cidade. 

Apesar do estilo colonial, os edifícios da zona do Plateau não deixam de ter a imagem de marca de Cabo Verde: as cores. 

Neste passeio passamos por vários pontos de referência da cidade, como o Palácio Presidencial, Praça Alexandre Albuquerque, a Igreja de Nossa Senhora da Graça ou o Quartel Jaime Mota. 

Neste trajecto vê-se muitas pessoas a vender fruta nas ruas, doces, fruta e pão, tanto em pequenas bancas, como caminhando pelas ruas com um alguidar na cabeça. 

Aqui, existem ainda alguns mercados pequenos de produtos frescos.

Um pouco por acaso acabamos por visitar dois destes mercados, um deles o Mercado Municipal de Praia. 

Os cabo-verdianos são pessoas cheias de personalidade e estilo, gostamos muito da vibe das pessoas em Praia, apesar de ser a ‘’cidade grande’’, são super atentos e interessados por quem se cruzam na rua.

Primeiro fitavam-nos com um olhar desconfiado, mas mal dizíamos um ‘’boa tarde’’, abriam com um enorme sorriso e um par de perguntas. 

São um povo de generosidade ímpar e de bem com a vida, ficamos bastante impressionados.  

No cruzar destas ruas existem várias constantes, a venda de produtos frescos, as crianças e brincar na rua, a música que se faz ouvir vinda dos cafés e das casas coloridas de Praia. 

Explorado o Plateau, caminhamos até ao Mercado Sucupira, o epicentro de toda a movimentação em Praia. Entretanto, nesse labirinto de bancadas que nunca mais acaba encontramos de tudo: comida, bebida, artesanato, utensílios domésticos, roupa, telemóveis, sapateiros, costureiras, cabeleireiros, animais vivos (galos, galinhas, coelhos, porquinhos, por aí fora), e é o ponto de encontro dos que se abastecem ou trabalham ali. É um local de e para cabo-verdianos. 

O principal negócio no entanto é outro. A gestão dos transportes coletivo, mais conhecidas como Hiaces, carrinhas de 15 ou mais lugares que só saem quando estiverem cheias de passageiros. Nas margens do mercado vemos filas sem fim das carrinhas, cada destino tem uma fila própria e o primeiro na linha é o primeiro a partir. 

Assim como diversas bancas de comida de rua, e imensos vendedores de produtos frescos ou docinhos, que tentam vender os mais diversos produtos a quem espera sair de Praia pelos Hiaces. 

É através dos Hiaces que a maioria dos habitantes da ilha se move entre cidades. 

A lógica é simples, existem várias filas de Hiaces junto ao mercado Sucupira, estas carrinhas de 15 lugares têm como destino os vários pontos da ilha, assim que estiverem cheias seguem até ao seu destino. Como saber quais são as paragens? Não há paragens definidas a não ser o destino final, se o teu destino ficar algures no trajecto, pede ao motorista para te deixar sair, criando a tua própria paragem. 

Continuando a explorar o Sucupira, os comerciantes que ali encontramos em nada eram agressivos ou persistentes, a boa vibe dos cabo verdianos é extensível também aos comerciantes, que são super gente boa e tranquilões. 

Assim, encontramos um mercado muito seguro, apesar de o ‘’Turista’’ ser um bicho desconhecido por aqui, foi uma experiência super rica, pela abertura das pessoas e por nos ser possível testemunhar o estilo de vida de Praia de modo tão directo, trocando sempre um par de frases com todos os que conseguimos. 

Apesar de já se aproximar o final do dia, e ainda sem ter muita noção que pelas 18 horas já é noite, apanhamos um táxi até à Achada Grande Frente. 

Achada Grande Frente é uma das zonas mais pobres de Praia, o que nos atraiu ali, além de presenciar a vida dos locais, foi ver arte urbana que existe neste bairro. Vários artistas de arte urbana, o Português Vhils incluído, têm deixado a sua marca artística ali, com a intenção de puxar o bairro à atenção de quem visita Praia. 

Este bairro de habitação não tem referências turísticas, a não ser a arte urbana. 

Provavelmente fomos o primeiro caso de sucesso do projeto uma vez que os locais nos olhavam com um ar de estranheza mas ao mesmo tempo com a simpatia sempre presente nos cabo-verdianos. 

A visita a este bairro permitiu-nos uma primeira visão da vida quotidiana dos cabo-verdianos. 

Observamos as pessoas a viver a sua vida a frente das suas casas, as crianças numerosas a brincarem na rua e as mães a assar o frango ou o peixe nos grelhadores a porta de casa. Já se fazia tarde e fomos apanhados desprevenidos pela rápida descida do sol por volta das 18h da tarde. 

Novamente uma mistura, desta vez entre casas em construção ou em vias de construção mas com fachadas de cores vivas ou com pinturas a ocupar a fachada toda, na maioria casas de família, muitas vezes sequer sem janelas, mas sempre com muito movimento dos que ali vivem. 

Dada a hora a que lá chegamos haviam muitas pessoas a regressar às suas casas depois do trabalho ou escola, pessoas a cozinhar o jantar na porta de casa em grelhadores improvisados, muitas deles venderiam também parte da comida confeccionada aos que passam por ali. 

Pelos olhares e abordagens rapidamente percebemos que, mais do que no Sucupira, pessoas estranhas ao bairro não costumam passar ali. 

Tivemos crianças a apontar para nós, e a gritar em plenos pulmões coisas como: ‘’ TURISTASSS!!!’’ ou ‘’Olha dois brancos!!’’

Andamos perdidos pela Achada Grande, procuramos e encontramos imensa arte urbana que valeu a pena a aventura de ir até ali, e conversamos com imensas crianças que nos encaravam com imensa curiosidade. 

Alguns adultos por estranham a nossa presença fitavam-nos, causando algum constrangimento, mas nós mantivemos a nossa prática de cumprimentar todos com quem os nossos olhares se cruzavam. 

No cimo do prédio onde vive, a Vânia, deu-nos as boas vindas (ou terá sido um alerta?) gritando ‘’Turistas’’ em plenos pulmões, já na partida gritou um não menos simpático ‘’ Tchau Mónica’’. 

Escureceu demasiado rápido, vimos imensa arte urbana, tirei imensas fotos (mas perdi o cartão de memória #SHAME), e quando ficou noite cerrada (ali não há iluminação nas ruas), bateu aquela consciência: ‘’ Como voltamos a Praia?’’

Não vimos nenhum táxi que nos pudesse fazer regressar ao centro da cidade. E apesar de haver alguma iluminação e da existência de pessoas na rua, sabendo que os bens que trazíamos provavelmente permitiam a uma família cabo-verdiana sobreviver durante um mês ou dois e que o caminho de regresso a pé seria longo passando por um conjunto de estradas vazias e mal iluminadas, não estávamos totalmente confortáveis. 

Felizmente, no meio do escuro, e depois de 20 minutos a andar sem rumo, sem que se visse qualquer táxi ou transporte público, já com a sensação de que estávamos perdidos e que a qualquer momento algo poderia correr mal: vimos duas pessoas paradas na estrada, e que para nossa satisfação, nos confirmaram que passaria ali o último autocarro do dia para a cidade. Estávamos safos, por apenas 82 escudos, e alguns olhares indiscretos, ficamos a porta do nosso alojamento e com uma história para contar. 

No dia seguinte utilizamos o colectivo para partir até ao Tarrafal, que fica no outro extremo da ilha, o percurso teria uma duração de duas horas, parte do trajecto seria atravessando a bela, extensa e impactante Serra da Malagueta. 

Como nos próprios experienciamos, ir de colectivo no sentido oposto ao trânsito, sair de Praia de manhã quando toda a gente está a chegar ao mercado, pode levar a uma ou duas horas de espera. 

Estas duas horas para nós foram tranquilas, deram-nos tempo para observar a dinâmica do mercado que se fazia bastante movimentado naquela manhã, e das inúmeras pessoas que ali se cruzam. 

As capacidades de gestão de stress e de multitasking do condutor são testadas: manter os turistas dentro da carrinha a espera, aguentar a pressão para partir dos próximos condutores na linha e apanhar mais gente para encher a carrinha até ao fim. 

O nosso foi muito bem-sucedido, ninguém desistiu e saiu em direção a Tarrafal com todos os lugares possíveis ocupados. Metade turista, metade locais.

Quanto ao colectivo (Hiaces) a norma é, as pessoas vêm de vários pontos da cidade para ir ao Mercado ou visitar a cidade, então além dos 5 locais que queriam ir até algures no meio da Serra da Malagueta, estávamos nós a tentar ir até ao Tarrafal e dois casais franceses. 

Aguardamos duas horas – se estás na ilha, aceita o ritmo da ilha – para que o Hiace ficasse cheio faltavam apenas mais 3 passageiros, o que desesperou o único Japonês no grupo.

Decerto que não estava familiarizado com o mantra do  ‘’no stress’’ da ilha. 

Da espera, testemunhamos os nervos em franja do jovem motorista que enquanto procurava freneticamente mais três pessoas para ir até ao Tarrafal, fazia a gestão devida para não perder nenhum dos que já estavam junto do colectivo.

A viagem até ao Tarrafal serviu para ter uma maior noção da ilha de Santiago – já que basicamente a atravessamos para lá chegar. 

O percurso faz-se pela única estrada que existe, atravessando, como já referi, a Serra da Malagueta. E é este o principal destaque para a viagem, uma paisagem linda que nos faz querer voltar a fazer aquele percurso pernoitando nalguma das vilas que cruzaram o nosso caminho, com o fim de conhecer melhor esta zona. 

No percurso, além de testemunharmos serra, é-nos possível também ver um pouco das vilas e as gentes que se cruzam com este trajecto.

Desde crianças no regresso da escola, percorrendo largos quilómetros para voltar a casa,  cheios de estilo, a brincar e a dançar, a ouvir música ou simplesmente na conversa com o amigo do lado, dando uma lição de simplicidade a nós que os observamos

Mães que foram buscar as suas crias à escola, mães que se despedem dos filhos antes de entrarem no Hiace para ir trabalhar, infindáveis bancas de vendedores de frescos na borda da estrada, mulheres que carregam grandes garrafões de água ou produtos alimentares, por quilômetros até chegar a casa, seja para venda ou consumos da própria família.

Muitas deles vão cedo até ao Tarrafal comprar peixe, para depois os venderem nas vilas, fazendo diariamente uma quantidade insana de quilômetros com a mercadoria à cabeça. 

Já na volta, testemunhamos as infindáveis bancas, agora vazias, missas e comícios políticos a céu aberto, concertos de jazz, e música, muita música em cada cantinho deste trajecto.

Com o tempo reduzido na ilha ir ao Tarrafal retiraria a possibilidade de conhecer a cidade velha, ainda assim não nos arrependemos nem por um segundo. 

Se a viagem foi divertida, chegar ao Tarrafal, e vislumbrar aquela praia azul cercada de um montanhoso verde que a envolve, banhada com areal imaculado, foi o melhor que nos poderia ter acontecido. 

Vila pequena, tipicamente pescatória, super amorosa e cheia de vida e cor, com pessoas ainda mais simpáticas e afáveis, e com um peixe maravilhoso!

O areal da praia tem imensos barcos coloridos ‘’estacionados’’ que logo denunciam a localização do mercado do peixe, onde as mulheres dos pescadores vendem o produto obtido no mar naquele dia. 

Apesar da vontade de almoçar, não resistimos ao primeiro mergulho no mar de Cabo Verde, a água morna e limpa, de onde fica difícil sair de tão boa que é!

Para além da praia, visitamos a vila com as suas casas típicas e o mercado, tentando absorver o máximo da vida local. 

Depois de uma maratona de mergulhos, fomos até ao Museu da Resistência, um antigo campo de trabalhos forçados, construído pelo Estado Novo, muitas vezes conhecido por ‘’campo da morte lenta’’, para onde foram enviados alguns presos políticos portugueses e das antigas colónias portuguesas. 

O Museu da Resistência fica uns largos metros afastado do centro do Tarrafal, na ida apanhamos uma boleia (por uns 25 escudos cada um) numas carrinhas de caixa aberta, uma espécie de táxi utilizado pelos locais. 

Antes de entrarmos no Campo, existem uns edifícios do lado direito, que anteriormente seriam as residências dos oficiais que trabalhavam no Campo do Tarrafal, e que são hoje morada de algumas famílias. 

Mal lá chegámos algumas crianças vieram ter conosco pedindo dinheiro, foi a única vez que isso aconteceu em todas as férias em Cabo Verde. Tentamos satisfazer os pedidos com marcadores, livros e o resto da garrafa de água que tínhamos connosco. 

Na entrada do campo encontramos o Zezinho, que trabalha no Museu da Resistência há 27 anos, e ali vive. Contou que tem 3 filhos, dois machos e uma fêmea, segundo o próprio. 

Os olhos dele encheram-se de lágrimas quando contou que os filhos partiram para o Senegal e França em busca de trabalho, assim como quando falou um pouco sobre o seu local de trabalho, o Campo de Morte lenta construído por portugueses.

Após uma conversa com o porteiro do campo, que, para além de nos ter resumido a história da sua família, nos garantiu que recebiam muitas turistas de diferentes países, entramos no campo onde eramos os únicos visitantes. 

O local ensina algumas das crueldades cometidas pelo regime português aos seus adversários políticos, numa primeira fase mais cruel do campo, e aos combatentes pela liberdade das colônias numa segunda fase. 

Há um esforço interessante de partilhar o conhecimento sobre o que lá se passou através de placas informativas no espaço degradado do campo. 

Podemos ver todos os edifícios do Campo, e perceber um pouco melhor quem foram os presos políticos que ali morreram, foi muito interessante fazer aquela paragem, aconselho a fazer o mesmo. 

Regressamos à Praia no colectivo, desta vez tivemos a sorte de ser dos últimos ocupantes, e não esperamos muito. 

A viagem de regresso foi novamente tranquila e em segurança, mas agora com várias paragens pelo meio, deixando locais pelo caminho que estavam de regresso a casa após um dia de trabalho ou apanhado jovens a caminho da cidade.

Já em Praia, tivemos um jantar num dos sítios mais conhecidos de Praia, o Quintal da Música ( tão conhecido que até o Nani lá estava! )

Neste restaurante, com espectáculos ao vivo todos os dias, come-se maravilhosamente bem, para mim uma paragem super obrigatória para quem vem a Praia, comi o melhor polvo da vida aqui!

Na música ao vivo tivemos batuqueiras de Cabo Verde, e tal como a Madonna ficamos, obviamente rendidos.

Pessoalmente, adorei Santiago, adorei a Achada Grande e o Tarrafal. A ilha merecerá certamente uma nova visita com mais tempo!

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