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Mars To Travel

Williamsburg não é América: Mundo Judaico no bairro Hipster

Na minha primeira vez em Brooklyn, um pouco por acaso, após atravessar a Ponte de Brooklyn a pé, e tirar a foto típica em Dumbo, algures em 2017, perdi-me por ”uma” Williamsburg (a zona judaica ultraortodoxa)  que não fazia a mínima ideia que existia. 

De repente, e depois de visitar alguns dos locais mais emblemáticos de NYC, entramos numa zona residencial que não sabíamos que existia. Aqui circulam um infindável número de autocarros escolares com inscrições em hebraico, comércio de todo o tipo com nomes no mesmo alfabeto, judeus de kipá ou os imponentes shtreimel (apesar do calor que se fazia sentir) e muitas mulheres com indumentária semelhante e perucas brilhantes na cabeça, quanto passeiam os seus filhos.

Em 2017, fizemos um longo percurso por esta zona, não nos sentimos muito desconfortáveis, pois sempre que nos cruzamos com alguém sentimos que claramente não era suposto ou comum, turistas vaguearem por ali. 

No nosso caso, tal só aconteceu pois queríamos ir de Dumbo até à Bedford Ave, e achamos que ir a pé, pela zona mais interior de Brooklyn era boa ideia.

Não foi, a distância é enorme e o caminho não é muito interessante, à excepção, claro, desta descoberta que acabamos por fazer. 

De repente era como se estivéssemos em Israel, sem termos dado conta. A verdade é que Nova Iorque tem mais de 6 Milhões de judeus, fazendo dela a segunda capital da comunidade judaica, fora de Israel. 

A comunidade ultra ortodoxa fixou-se praticamente toda em Crown Heights e Williamsburg, Brooklyn. 

Esta zona tem a maior sinagoga e o maior aglomerado de comércio judaico, desde lavanderias, ourivesarias, restaurantes e minimercados.

Todo o negócio de joias em Nova Iorque é controlado por esta comunidade ultra ortodoxa, testemunhado pela sua presença na ‘’Diamond District’, em Manhattan.

Se é verdade que nem em todas as lojas é perceptível verificar que o negócio é controlado por judeus, a ”maior” prova faz-se quando estas estão vazias durante o shabat (entre sexta-feira e sábado). 

Outra prova da sua presença em Brooklyn, são as escolas e os incalculáveis autocarros das escolares que circulam pelas ruas, que em tudo se assemelham aos milhares de autocarros amarelos que circula por toda a parte nos EUA, só que estes emergem com as suas inscrições em hebraico. 

‘’ Williamsburg não é América’’: a afirmação de Esty da série ‘’Unorthodox’’. 

Ficou-me na cabeça, por retratar um pouco do meu ”espanto” ao visitar esta zona que em nada tem traços americanos, e que – por ignorância minha –  não fazia ideia que esta comunidade ali existia. 

Na perspectiva de que a América é associada a um Mundo de oportunidades, da liberdade e da aceitação – principalmente no estado novaiorquino – é curiosa a permanência desta comunidade aqui, ao longo dos anos. Uma comunidade que se considera altamente conservadora, inserida numa das zonas com mais vida e modernismo no Mundo. O passeio foi uma autentica viagem no tempo e no espaço. 

Enquanto deambulamos por aqui, foi notório o desconforto ao cruzarmos com membros da comunidade, que muitas vezes evitam sequer cruzar olhares. Para nós foi novo. Uns anos mais tarde, ao visitar Israel (2019), e mesmo voltando a Williamsburg (2020), o que outrora me despertou curiosidade e alguma ”estranheza” foi, agora enfrentado com naturalidade. Afinal, a pessoa estranha aquele lugar, era eu e não as pessoas com quem me cruzei. 

De modo mais indirecto, todos sabemos que não lhes é permitido usar internet, vivem de regras que considero rígidas, condutas de comportamento que – para mim – são demasiado uniformizadas, e têm uma definição de liberdade bastante diferente da noção mais globalizada. 

Por outro lado, é completamente incrível que esta comunidade tenha resistido a qualquer ponta de modernismo, estando no centro do Mundo.

A certa altura entre a década de 70 e 80, Brooklyn, começou a estar na mira de jovens e artistas, que não conseguiam alojamento acessível em Manhattan.

Esta procura por Brooklyn, torna-a num local menos ”main stream”, quando comprada com NYC, evoluindo numa modernidade muito própria. E isso nota-se, nos seus cafés, restaurantes e lojas, e é essa a razão de Brooklyn ser considerada uma das zonas mais ‘’hipster’’ no Mundo. 

Este modernismo coabita com a referida comunidade judaica, e a estes somam-se todas as comunidades que ali vivem desde latinos, italianos, afro americanos – e tantos outros.

E isso é incrível, torna-a vibrante e um ponto de interesse incontornável. 

Incrível é também a maneira como tudo isto coabita em Brooklyn, toda esta multiculturalidade, o contraste constante tornam-na curiosa, cheia de vida e rica em influências. 

É por isso que, para mim, Williamsburg é a América. E caracteriza-a, na prespectiva de que ela é resultado claro de um território que alberga e tem espaço para todos, tem espaço para liberdade, aceitação de diferenças e excentricismo. A verdade é que na pratica, todos os dias sao registados ataques a judeus ou manifestações isoladas de natureza anti-semitista. Da mesma foram que todos os dias conhecemos e lemos noticias xenófobas ou racistas. Estaremos a fazer pouco pela aceitação? Estamos certamente.

xoxo, 

Mars

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